O vrus final.
Pedro Bandeira.
      Incio... Incio?!
         V, o que  "amanuense"?
         Hum...?
         "Amanuense"... O que quer dizer?
         Hum... Ahan... Isso todo mundo sabe... Quer dizer... bem...  como se chamavam os habitantes de Amanu... Viu? Amanuense! Quem nasce em Amanu  amanuense...
         Amanu? Nunca ouvi falar... Onde  que fica isso?
         Ora, menino, fica em ... Manaus. Isso, em Manaus! Antigamente, Manaus se chamava Amanu...
         Ah, ?
        Na verdade eu nem senti vergonha de inventar essa explicao para o meu neto. Eu no sei o que quer dizer "amanuense", mas isso no tem a mnima importncia.
Afinal de contas, nesse ano de 2150, nenhuma informao tem qualquer sentido. Nada mais h para ler, a no ser as velhas publicaes de antes de 2050. E to poucas
sobraram depois dos grandes incndios! Tudo to parado, tudo to velho...
        Bom, l vou eu comear com as lamentaes sobre Vrus Final, voc deve estar pensando. No, pode ficar tranqilo, eu no vou.
        De que adianta lamentar-se? De que adianta ter saudades de um tempo que jamais voltar? No h mais ningum vivo que tenha aproveitado aqueles velhos tempos,
quando livros eram impressos aos milhares e quando  dizem  jornais eram publicados todos os dias! Depois... bom, depois da srie de incndios que foram destruindo
quase todo o papel que havia no mundo, o que restou pouco ou quase nada conseguia refletir daqueles tempos que  ainda como dizem as lendas  eram "tempos dourados".
        T bem, t bem. Isso so apenas velhas lendas mesmo e nem adianta falar sobre isso. Mas acontece que, quando meu neto me perguntou o que era "amanuense",
me veio a vontade de saber onde ele tinha encontrado aquela palavra to estranha.
         Na casa abandonada, vov.
        "A" casa abandonada era apenas uma das milhares de casas abandonadas e vazias que compunham as paisagens de todos os lugares, desde que aos poucos a humanidade
foi diminuindo, vitimada pela fome e pelas doenas surgidas depois do Vrus Final. Mas era uma das poucas que ainda ficava de p, quase intacta, entre as filas de
esqueletos calcinados: um ser quase vivo no meio da nossa paisagem fantasma.
        Mas "aquela" casa abandonada a que meu neto se referia era seu lugar especial de brincar, onde ele passava horas explorando os muitos cmodos desertos daquela
construo que deveria ter sido um dia uma manso importante, na certa habitada por algum com poder e dinheiro.
         Na casa abandonada, vov. Veja o que eu encontrei. Estava dentro de uma caixa de ferro. Veja: o fogo nem chegou perto...
        E meu neto me estendeu uma pilha de papis velhos, amarelados. Reconheci na mesma hora os caracteres uniformes que cobriam as pginas. Eram produto de um
antigo engenho mecnico, h muito desaparecido, a que chamavam "mquina de escrever". Dizem que era um brinquedo fabuloso! Imagine voc que essa tal mquina reproduzia
as letras com a mesma uniformidade dos dois livros e da pequena pilha de jornais impressos que, em nossa famlia, so passados de pai para filho, comotesouros. Estes
dois livros, v? E estes jornais, que eu adoro reler agora que estou velho. , talvez s o que reste em nossa famlia seja esse saber intil: ns sabemos ler. Mas
para que serve isso hoje em dia?
        Meu neto foi brincar e eu me pus a ler as pginas amareladas do texto.  claro que voc no vai acreditar, mas garanto que, pela primeira vez, temos uma
pista valiosa de como surgiu o Vrus Final. Por isso eu trouxe estes papis para voc. Leia com ateno. Ser que eu estou certo?
      A gravata-borboleta
        O asseado dormitrio, da limpa porm modesta Penso Familiar Alegria e Sossego (em que sossego seria o termo exato para aquele tmulo, e alegria, texto publicitrio
sem nenhum cabimento), era to diminuto e to singelamente mobiliado que muito bem satisfaria ao mais enclausurado dos monges.
        Catre, cadeira, mesa e pronto.
        Mais nada.
        A no ser ordem.
        Ordem e singeleza eram os principais ornamentos do ambiente.
        Sombrio, isso sim, era o quarto, cuja pequena janela dava para um ptio interno emparedado em musgo e ndoas cor de azinhavre.
        Amanhecia no resto da cidade, mas, naquele quarto, os mais insistentes raios do sol nascente mal conseguiam infiltrar-se pelas frestas da janelinha e nem
chegavam a definir a cor de rato das irreconhecveis flores do papel de parede, j em muitos pontos cuidadosamente remendado por pedaos de papel de embrulho, em
que rabiscos de lpis de cor tentavam imitar o desenho original.
        Com a manhzinha, o galo de costume acordou Agostinho Salvestro, o amanuense.
        Silencioso, o homem utilizou-se do urinol e despejou numa bacia de gata lascado a gua para as ablues. Escondeu depois camisa adentro aquele corpo magro
e sem jeito e, mesmo sem olhar, seus dedos escolheram a gravata-borboleta cor de gema das segundas-feitas. Era essa sua nica exigncia elegante: o contraste entre
o surrado costume de casimira escura e as gravatas-borboleta. Possua sete ao todo, uma para cada dia da semana, penduradas pela ordem em um barbante de padaria
estendido ponta a ponta na face interna da porta do guarda-roupa, de modo a bastar apenas um gesto maquinal para que, todas as manhs, pousasse-lhe sobre o gasnete
a borboleta adequada.
        Chapu de feltro, h um bom par de dcadas elegante, Agostinho Salvestro celeremente se encaminhou para o trabalho.
      A rotina da solido
        Amigos, nunca os tivera dentro ou fora do escritrio bolorento, onde o obeso proprietrio fazia as vezes de rei e feitor, descarregando blis sobre as costas
estreitas do estreito amanuense. Salrio, nunca suficiente para um melhor terno ou moradia. Diverso, o trabalho era sua nica, e o colarinho branco, costurado com
linha amarela, atestava com preciso a inexistncia de mais leve presena feminina em sua vida.
        Mas, naquela manh, como em todas, sentia-se feliz  ah, sim, feliz!  com o prprio trabalho. Dias e noites de tantos anos passara a compor aborrecidos
documentos, caprichosa e pachorrentamente, com tal solitria alegria, que o descanso semanal era para ele uma tristeza, longe de suas queridas penas e papis.
        Era o homem certo no lugar certo.
        Seu cotidiano no escritrio seria, para qualquer pessoa, insustentvel. Do patro ao servente, haveria ali no mais de uma dzia de funcionrios, mas todos,
cada um segundo a prpria inclinao e estilo, dedicavam-se a atormentar a existncia de Agostinho, que tudo suportava sem um pio, com um sorriso, fechado dentro
daquele amor  escrita.
        Depois da longa caminhada pelo p ou pela lama, pois os poucos vintns de que poderia dispor jamais pagariam o luxo de um cabriol, Agostinho Salvestro era
sempre o primeiro a chegar ao trabalho, em tempo de esperar ali, na calada, at que chegasse o chefe e abrisse a grossa porta de carvalho ao amanuense, que se atirava
 escrivaninha, iniciando imediatamente a cpia de algum contrato, enquanto seus pulmes alimentavam-se do mofo mido que esverdeava os mveis e o prprio ar.
        Decorridos alguns minutos, com a chegada do resto do pessoal, comeava o dia para o escritrio e a via-crcis para Agostinho: um pedao de papel com um pouco
de goma-arbica era-lhe grudado ao casado, e o escritrio inteiro ululava de gozo, at que o pobre homem localizasse o instrumento da brincadeira, sorrisse e corasse
um pouco antes as barbaridades que ali estivessem escritas.
        Bolinhas de papel eram-lhe arremessadas contra a cabea com tal regularidade que Agostinho nem mais tomava conhecimento delas, feito um empregado de confeitaria
em meio s moscas regulamentares.
        Tachinhas na cadeira e sapos pelas gavetas eram as manifestaes mais comuns da ateno de que era alvo o pacato amanuense.
        O prprio servente, velho tuberculoso e raqutico, costumava varrer toda a sala e atirar o lixo, levantando nuvenzinhas de p seco, debaixo da mesa de Salvestro,
dele conseguindo apenas uma leve interrupo na escrita, para uma tossezinha que o livrasse do engasgo, voltando logo aps ao trabalho com renovada disposio.
        Naturalmente as manifestaes de maus humor obedeciam, naquela estabelecimento, a toda uma hierarquia: o proprietrio admoestava rudemente o tesoureiro,
este berrava com o caixa, que se voltava contra o primeiro secretrio, que quase agredia o segundo, que ia tomar satisfaes com o almoxarife e, assim, a culpa ia
sendo lanada de costado em costado, at que algum xingasse o moleque de recados, que deitava a lngua ao esqulido servente e, este, sem outra escolha, esbarrava
propositalmente no brao de Agostinho Salvestro, fazendo-o borrar a mesa e papis. E Agostinho, embaraadamente, levantava-se, presenteava o malcriado com um sorriso
e, pedindo desculpas pela prpria falta de jeito, dispunha-se a limpar a escrivaninha e a refazer o documento que o tinteiro derramado inutilizara.
        Mas, para alvio da boa ordem, Salvestro era um mau palhao. As provocaes encontravam uma reao to passiva, uma acolhida to dcil, que o tdio, aos
poucos, esfriava o sadismo. E, assim, boa parte do tempo, Agostinho era deixado em paz, a um canto, sendo apenas utilizado de quando em vez, como a chapeleira, o
mata-borro ou qualquer outro utenslio do estabelecimento.
        Apesar de tudo isso, dia aps dia, num eterno dizer-que-sim com a cabea, Agostinho mais feliz e dedicadamente se atirava ao trabalho, levando servio para
a penso, doando-lhe noites e domingos, quando o chefe lho permitia e o acmulo de contratos, compromissos e relatrios a lavrar era demasiado.
        Pode-se julgar que essa passividades e aplicao fossem devidas a um propsito de bajular, de despertar a ateno do empregador com vistas a uma possvel
promoo. Isso jamais lhe passara pela cabea. Copiar documentos era o cu para ele.Considerava-se um privilegiado por manter aquela colocao e nada havia acima
dela que ele pudesse almejar. Quanto aos maus-tratos, o amanuense possua uma deveras clara concepo poltica: patro  patro e empregado  empregado. So duas
categorias imutveis, duas condies indiscutveis. Deus assim quer e est tudo muito certo. De forma que uma injria, recebida de um superior, era para ele facilmente
aceitvel como nada mais que uma contingncia da vida tal como ela era e como ela devia continuar sendo. Uma ordem ou um palavro, vindos de algum mais alto, eram
para ele a mesma coisa. Um sorriso e a imediata execuo dessa vontade expressa pareciam-lhe a resposta adequada.
        E Agostinho, com esse modo de pensar, no fazia a menor distino entre o tesoureiro e o faxineiro, sendo para com ambos solcito, atendendo suas vontades
e suportando suas agresses. Se ali houvesse um cachorro, este poderia urinar-lhe nas calas, sem que o amanuense ao menos se afastasse, por mede de ofend-lo.
        E l ficava Agostinho Salvestro, uma grande pena de ganso com ponta de ao  mo, copiando caprichosamente, caligrafia miudinha, algum compromisso de importao,
menosprezado por todos, principalmente pelo proprietrio, que somente no se livrava daquela cara ovina por serem sua dedicao e seu zelo indispensveis ao negcio.
      Assustadora novidade
        Aquela manh, porm, e para sua surpresa, comeara diferente. Pela primeira vez, em longos anos, Agostinho Salvestro, ao chegar ao escritrio, encontrava-o
de portas abertas.
        Estaria atrasado? Deus, no era possvel! Ele, atrasar-se?
        Olhou ansiosamente para o grande relgio que encimava o livro de ponto. No  ufa! , felizmente no era nada disso. Mas ento o que acontecera?
        Hesitante, espiou para dentro: l estava o mesmo chefe de sempre, com a mesma larga bunda a transbordar da cadeira, sorrindo feliz, como nunca antes o fizera,
tendo  frente um misterioso pacote, aproximadamente do tamanho de uma valise, em papel pardo coberto por selos e inscries em vermelho.
        Agostinho no ousou entrar.
        Violada a rotina, paralisou-se-lhe a responsabilidade profissional. Deixou-se ali, quietinho ficar, de frente para a porta, compondo um quadro de espera
cujo nico movimento era o dos ponteiros do relgio que engoliam os minutos: seis e cinqenta, seis e cinqenta e cinco, sete horas! Sete e cinco e os primeiros
colegas, esbaforidos e mal-acordados, chegavam e acotovelavam o mumificado Agostinho, numa brincadeira j sem divertimento, cutucando-o por costume-quase-obrigao
e empurrando-o para dentro.
        Frente quela pequena turba semi-ruidosa, o patro ps-se de p.
        Era a hora habitual dos pitos pelo atraso e Agostinho, pela primeira vez na vida, sentiu-se parte do magote a ser admoestado.
        J com as orelhas rubras de vergonha, esfregando um ombro dolorido pela rudeza com que o cumprimentaram, s aos poucos o amanuense pde perceber que os sons
que lhe penetravam os sentidos no eram o que ele esperava. Formavam, ao contrrio, a demagogia de um discurso de boas-vindas... De boas-vindas?!
        Sacudindo o torpor que o invadira, Agostinho fez por prestar ateno: o discurso  voz rouca e pssima dico  falava de uma nova era para o escritrio,
da mudana dos destinos do pas, do progresso, da revoluo tecnolgica e, principalmente, da sabedoria do proprietrio ao adquirir, por bons contos de ris, a mais
esperada das maravilhas do engenho moderno.
        quela altura, a surpresa impusera a ateno mais religiosa e disciplinada aa todos os presentes, que no conseguiam desgrudar os olhos do estranho pacote.
        Salvestro torceu o nariz. Decididamente no gostava de novidades. Nem tampouco daquele sbito rompante senhoril que, sem mais, tomava ares de familiaridade
com os empregados, perturbando os conceitos sociais aceitos por Agostinho.
        Pulmes ofegantes pela curiosidade, j uma presena audvel no ambiente, resfolegavam, competindo com a voz do orador.
        O que conteria o pacote?
        Continuava o discurso  "... maior aproveitamento do trabalho, mais eficincia, mais rapidez, maiores lucros, talvez at melhores salrios..."  cada vez
mais ininteligvel,  medida que se elevava o tom de voz.
        A ansiedade comeou a dar coceira. O caixa coou a orelha. O tesoureiro, a barriga. O moleque, a carapinha; o secretrio, o olho, o servente, o interior
do nariz e, aos poucos, o roque-roque de unhas sujas sobre peles e cartilagens tomou aspectos de acompanhamento rtmico de alguma dana selvagem.
        E era quase isso o que acontecia. O orador empregava trs gestos para cada frase que, pronunciadas num crescendo de alterao apopltica, tornavam-no numa
rubra e volumosa bailarina, atirando banha e suor a apalermados espectadores que cada novo segundo de explanao mais desentendiam.
        Refugiado em um canto, atrs de todos, Agostinho podia apenas entrever mos balofas girando como ps de moinho por sobre as cabeas dos empregados. Nada
mais ouvia. Toda a ateno de que era capaz, todo o raciocnio, tardo, desacostumado, prendiam-se ao misterioso pacote. Como um minsculo verme, uma pequenina idia
l bem dentro do seu cerebrozinho fazia-o teimosamente intuir que aquele pacote representava um tremendo perigo para si. Sentia uma estranha relao, muito ntima,
entre o pacote e a sua pessoa. Suou, suou frio, enquanto sentia os dentes entrebaterem-se interminantemente no mesmo ritmo do tremor das mos.
        Agostinho Salvestro, naquele momento, mais que nunca em sua vida, teve medo.
        Falta de ar, engasgo final foram o "tenho dito" do orador. Exausto, foi aplaudido pelo silncio total.Nem coares, nem respiros, nem pigarros. Somente a
espera. Insuportvel j.
        Recobrado a muito custo o flego, novamente sorrisos, agora quase um esgar, o patro encaminhou-se pesadamente para o embrulho.
        Agostinho seguiu cada movimento dele. Grossos dedos lidavam com ns desenleveis, terminando por arrebentar barbantes, despedaar papis, papeles e apresentar
triunfalmente o contedo to aguardado.
        Foi nesse momento que o amanuense o odiou. Jamais se apercebera da imagem de arrogante supremacia que o imenso patro representava. Agora ele via um enorme
e ftido monstro destruindo cinicamente o seu futuro. Arrancando pedaos da sua carne. Dilacerando a sua vida. Teve certeza disso.
        Mal se desfez o pacote, Agostinho atirou-se num repente, empurrou corpos, pisou calos, colocou-se  frente e olhou.
        Tratava-se de um estranho objeto metlico. Negro, cheio de pinos, rolos., manivelas e botes. Em cada boto uma letra. Ningum na sala, a no ser Agostinho
e o empregador, percebeu o que era a engenhoca.
        Uma mquina de escrever!
        Salvestro soubera-o no primeiro instante em que deu com os olhos nas teclas letradas. Ocorreu-lhe uma notcia de jornal lida h algum tempo: ia-se tornando
popular o uso de um engenho mecnico para escrever e, na capital, chegavam as primeiras importaes destinadas principalmente a reparties do governo.
        A viso da mquina fora, de certa forma, decepcionante para os espectadores. No correspondera ao entusiasmado discurso, de modo que todos boquiabertos estavam
e boquiabertos mantiveram-se, aguardando a continuao do captulo.
        A lividez de Agostinho acompanhou uma folha de papel cuidadosamente introduzida entre os mecanismos. Quisera fugir, o ar lhe faltava, o suor alagava, as
pernas tremiam e um vcuo na boca do estmago diagnosticava muito mais o pnico do que a ausncia de alimentos desde que o amanuense acordara em seu modesto quarto
de penso. Contorceu-se, tentando escapar, mas a fuga era impossvel. Todos apertavam-se em torno do patro, vidos por compreender, comprimindo o pobre amanuense
contra a mesa at que a quina da escrivaninha quase lhe penetrasse a virilha.
        Veio-lhe  mente a idia que fizera ao tomar conhecimento da existncia de tal mquina de escrever: uma metlica manopla, segurando uma pena de ao, traava
com rudos ensurdecedores grandes letras sobre um caderno oculto por incompreensveis maquinismos. Mas, naquela momento, compreendeu seu erro.
        O gordo, sorrindo, levantou as duas mos como um prestidigitador ao comear a funo, esticou os indicadores, fechou os outros dedos sobre as palmas, exibiu
as duas grossas lingias em que unhas sarrentas de tabaco estavam coroadas por uma negra meia-lua e tentou repetir a explanao de vendas ouvida no dia anterior
quando adquirira a mquina em uma casa de importao.
        Em seguida, pesadamente, martelou um boto.
        Um rudo seco.
        Sobre o papel, surgia uma letra negra, de forma, bem traada.
        Outra batida.
        E outra.
        Outra ainda.
        Uma palavra se formava. E to perfeita quanto os tipos de um jornal!
        O homem foi acelerando as marteladas. Rudos como o de crepitar de uma fogueira foram aumentando. A cada batida, o papel corria sobre a mquina como se movido
por encanto.
        O crepitar aumentava e aumentava e aumentava.
        Bonitas formigas cobriam regularmente, organizadamente o papel.
        Apareceu primeiro um sorriso como o de um ndio diante de um espelho. E os sorrisos foram-se abrindo. O crioulinho deixou ver as gengivas e o almoxarife,
uma redonda crie como um minsculo buraco de bala entre os dois incisivos superiores. Aos poucos, todos os empregados sorriam, olhos esbugalhados de admirao.
Segundos depois, os sorrisos pareciam risadas, as risadas gargalhadas e o escritrio inteiro, um manicmio.
        Enquanto o patro continuava a massacrar o mecanismo, agora tresloucadamente, j sem o intuito de formar palavras, os empregados gritavam, abraavam-se,
riam, comentavam, pulavam e, ao som do ticti-tocti da mquina, aquilo se foi transformando numa dana louca, louca...
        Sob uma escrivaninha, a mais afastada, enrolava-se Agostinho Salvestro, o amanuense. Totalmente oculto, o escuro chapu de feltro enterrado at s sobrancelhas,
os olhinhos tristes, piscavam rapidamente, enquanto lgrimas grossas, fartas, quentes corriam-lhe pelo rosto, indo encontrar o suor do colarinho.
      Um monstro coberto de letras
        A partir daquela data, o escritrio passou por completa reformulao.
        Mais inchado ainda de orgulho pelo advento da nova era, o proprietrio, manifestando o primeiro reconhecimento  dedicao de Agostinho, designou-o para
operar a mquina.
        O pobre amanuense, lvido, choramingou, negaceou, implorou que lhe dessem algo a copiar, prometia caprichar ainda mais no servio, traaria letras de forma
se quisessem, se quisessem, poderiam reduzir-lhe o salrio ...
        A poca da pena e do tinteiro estava superada, todavia. Transformando a inicial magnificncia numa ordem rude, o chefe, com um gesto, f-lo sentar-se  mquina
debaixo da expectativa geral.
        O pnico apossara-se de sua pessoa. As mos estavam grudentas de suor. Limpou-as nas coxas e olhou em volta. Todas haviam abandonado o que faziam e esticavam
o pescoo at ele.
        Agostinho recordou-se dos sucessos do dia anterior quando, depois da orgia que comemorara a entrada daquela inovao no escritrio, o chefe dispensara os
empregados, decretando feriado o resto do dia. O amanuense, oculto sob a escrivaninha, l se deixou ficar, chorando, completamente despercebido de todos, que foram
deixando um a um o escritrio. Muito mais tarde, Agostinho esgueirara-se pela janela traseira e, pulando o muro, fora tomar o primeiro porre de sua vida.
        Agora, com a cabea prestes a explodir, desacostumado  ressaca, o amanuense olhou splice para o empregador como o condenado que, j com a corda no pescoo,
olha para o carrasco esperando revogao da sentena.
        Um sobrolho carregado obrigou-o a voltar-se para a mquina.
        Aquele monstro metlico parecia querer devor-lo. As teclas assemelhavam-se s serpentes da cabea de alguma medusa, pequenas fauces famlicas, hiantes,
avidamente  espera,  espera...
         Benzeu-se, tendo a certeza de que, em algum longnquo pas, algum inventara aquela engenhoca com a nica finalidade de prejudicar Agostinho Salvestro,
o humilde amanuense.
        Aspirou fundo, as narinas fecharam-se sibilando e, timidamente, iniciou a funo.
        Horror! Procurava uma letra, imprimia-se outra. Levava uma eternidade para localizar a prxima. Duvidava da existncia de outra. Rezava. Balbuciava. Tremia.
Erguia os olhos numa expresso pattica de carneiro que vai sendo levado ao matadouro. Clemncia, auxlio, perdo!
        Nada.
         volta, sorrisinhos. Risadinhas de mofa. Gargalhadas de escrnio. Esgares. Prazer!
        Afinal, Agostinho Salvestro estava descontrolado. No mais conseguindo manter a passiva indiferena de antes, as brincadeira encontraram eco e ele conheceu
o inferno em vida.
        O empregador estabeleceu uma semana de prazo para que o datilgrafo pudesse adaptar-se  nova funo. Agostinho, porm, s regredia. Como um pesadelo, passavam-se
as horas no escritrio:  frente, aquela hidra de ao mordendo-lhe os dedos, escarnecendo de sua vontade, torcendo suas intenes. Atrs e  volta, os carrascos,
com novo nimo, j no mais sabiam o que inventar para prejudicar-lhe o trabalho e o esprito.
        Depois de horas de tentativas, suando, Salvestro verificava que s pudera imprimir algumas poucas linhas.  noite, encolhido no catre, o corao aos pinotes,
ele sonhava com letras de forma, teclas, risadas, bocas e dentes, bocas e dentes, bocas e dentes...
        Alm disso, Agostinho dera para beber. Podia-se agora encontr-lo, aquele outrora mais sbrio homem do mundo, entornando sem prazer, com asco at, uma cachaa
barata que, se no o aliviava, ao menos dava-lhe sono.
        Assim, antes que o prazo expirasse, o escritrio tinha novo empregado.
        Era um jovem, mal vinte anos, bem trajado, ar pretensioso, que surgira certa manh e, apresentado pelo chefe, que concordara em pagar-lhe um salrio bem
acima do usual da firma, gabara-se de um profundo conhecimento, tcnico e funcional, da mquina de escrever, o que foi prontamente demonstrado.
        Agostinho Salvestro viu-o sentar-se  mquina, mexer os dedos para ativar-lhes a circulao e, com um sorriso de completa autoconfiana, pr-se ao trabalho.
Aqueles dedos, longos e finos, qual pianista virtuose ante seleta platia adepta da boa msica, deslizaram com tal rapidez sobre o teclado que uma lauda inteira
estava irreprochavelmente preenchida em minutos!
        O escritrio inteiro, embasbacado, prorrompeu em aplausos quando o jovem, num gesto rpido e teatral, arrancou o papel da mquina e apresentou-o  volta
como se fosse uma obra-prima da Renascena italiana recentemente descoberta. Modestamente, inclinou a cabea em agradecimentos s palmas e retomou seu lugar, dispondo-se
a continuar a funo.
        Agostinho balanava a cabea desacreditando, e o patro balanava a cabea com agrado, desacreditando e desbancando o triste amanuense: enquanto o jovem
era guindado  posio de coqueluche do escritrio, alvo da inveja, homenagem e admirao do chefe e dos colegas, alm do "no-me-toques" das donzelas da cidade,
Agostinho foi transferido para o balco de estampilhas.
        Com o corao esmigalhado pelas saudades de suas adoradas escritas, a cabea  volta com tantas novidades, Salvestro tudo confundia e, ao estampar um selo
sobre a nota de dinheiro que um cliente apresentara em pagamento, mudaram-no para o almoxarifado. L, as mos trmulas, os olhos turvos, quebrou trs tinteiros e
danificou preciosos blocos de papel importado. Acabou ento como auxiliar do servente, tendo como principal tarefa fazer a limpeza das privadas.
        A pique de bot-lo no olho da rua, o patro acabou mantendo-o nesse cargo porque, dada a sua atual desateno, e desleixo Agostinho executava to mal o servio,
os sanitrios exalavam um cheiro to ftido, que os empregados no mais podiam encurtar as horas de trabalho permanecendo mais do que o necessrio naquele local.
        Agostinho Salvestro novamente se estabilizara numa funo.
      O Vrus Final.
        O centro da cidade amanhecera engalanado naquele dia e, agora, o sol assava lentamente a multido que cercava o palanque oficial. A banda j calara seus
dobrados, e todos podiam ouvir a perorao do prefeito, que suava em bicas, metido num terno de linho ingls. A imobilidade de assistncia era apenas perturbada
pelo abanar de dezenas de palhetas espantando o calor e as moscas.
        Ao lado do palanque, via-se um bonde todo coberto de flores e fitas, com o senhor proco postado  frente, pronto a promover a beno, logo que terminasse
o discurso.
        O alcaide explicava roucamente as vantagens que a cidade haveria de auferir de sua preclara administrao: no mais os primitivos bondes puxados a burro;
aquele era o sculo da Eletricidade, e todos deviam agora sentir a honra de testemunhar a inscrio daquele municpio no rol dos maiores do mundo que j possuam
bondes eltricos.
        Em meio  hesitante ovao da platia, ouviu-se uma voz solitria que berrava qualquer coisa sobre o desemprego dos burros, a crise na produo de alfafa
e, subitamente, um homem correu em direo ao reluzente veculo.
        Entre os gritos histricos das senhoras, desmaios, o proco a correr, o anarquista ps-se a arrancar as fitas e os gales que enfeitavam o bonde e a sacudi-lo
pelos balastres, como se pudesse demoli-lo, qual Sanso entre as colunas do templo filisteu.
        Um lampejo de ao no ar e o destruidor foi abatido pelo sabre do comandante militar da regio que, to engalanado quanto o bonde, ergueu o brao armado,
espetando o ar em indiscutvel gesto para a Histria.
        Quem teve coragem olhou par o corpo que tombara sobre os estribos do bonde, batizado com sangue no dia de sua inaugurao. A cabea, quase decepada, tinha
ainda uma gravatinha-borboleta presa  garganta aberta.
        Mas, naquela poca, muitos homens usavam gravatinhas-borboleta, de modo que essa pequena tragdia provavelmente nada teve a ver com a histria de Agostinho
Salvestro, o amanuense.
        Apenas me lembrei de contar suas desventuras porque hoje em dia as mquinas de escrever voltaram  moda devido ao colapso total de todos os computadores,
depois da invaso do Vrus Final. Ainda est gravado em minhas retinas o ltimo lampejo de meu computador, antes de apagar-se para sempre: uma figura antiga, com
uma gravata-borboleta ensangentada presa a um pescoo sem cabea...
      Concluso... Concluso?!
        O que eu posso concluir? Ter sido assim que surgiu o Vrus Final? Talvez no... Isso talvez s tenha sido o produto da cabea de algum com muita imaginao.
Dizem que, h um sculo, muita gente tinha imaginao... Dizem, no ? Mas, como verificar isso?
         Muito bem. Mas por que o senhor est me contando tudo isso?
         Bom, meu jovem ...  que, sabe? Ouvi dizer que voc tem um livro raro.
         Tenho muitos livros. Tenho oito livros ao todo.
         Oito?! Puxa... ... pois  ... ouvi dizer que voc tem um muito especial. Dizem que h um livro grande, grosso, onde todas as palavras aparecem enfileiradas,
cada uma com explicaes sobre o seu significado. Isso existe mesmo? Ou  mais uma das lendas?
         Existe. E eu tenho um. Chama-se "dicionrio".
          mesmo? Bom, me desculpe, foi por isso que eu vim.  que eu gostaria de saber...
         Est bem, j entendi. O senhor quer saber o que quer dizer "amanuense" no ?
         Para falar a verdade, no. O que eu gostaria mesmo  de saber o que quer dizer "computador"...
Fim.
